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Todos juntos e estressados

A crise atual tem provocado uma montanha-russa de emoções, e os impactos na saúde mental já começam a ser sentidos



Com a bebê Sofia, de 6 meses, e a mulher, Ariane, Vilson Locatelli Junior, de 31 anos, teve dificuldade em equilibrar as novas responsabilidades como pai de primeira viagem e como gerente na fábrica de Nerópolis da Kraft Heinz

Foto: (François Calil/Exame)


Assim como muitas pes­soas, Vilson Locatelli Junior, de 31 anos, começou 2020 pronto para dar um novo rumo à sua vida: novo emprego, nova cidade e a primeira filha a caminho. Ele sabia que seria um desafio. Ainda no final de 2019, Locatelli encerrou numa sexta-feira o período na empresa onde estava havia oito anos, sua filha nasceu no sábado e na segunda-feira ele assinou o contrato com a Kraft Heinz como gerente de produção e melhoria contínua na fábrica de Nerópolis, no interior de Goiás, onde trabalham mais de 1.000 funcionários.


Em 20 dias, ele e a família saíram de Ipumirim, em Santa Catarina, para morar em Goiânia. E então veio a pandemia do novo coronavírus. Juntamente vieram também o estresse e a pressão de todos os papéis que ele desempenhava. Às novas responsabilidades de gestão foram acrescentados os protocolos de segurança contra a covid-19 na fábrica. Aos cuidados com a filha somaram-se a preocupação de sair todos os dias, aumentando o risco de contágio e ainda de perder momentos preciosos de seu crescimento.


“Aí, eu balancei. Sou uma pessoa organizada e acho que tenho uma boa inteligência emocional, mas chegava ao final do dia sem ter respostas de como segurar todos os pratos que equilibrava. Eu queria ser igualmente responsável por criar minha filha, não apenas ‘ajudar’ minha esposa, mas me vi saindo de casa e chegando tarde sem encontrá-la acordada”, conta ele. “Eu me sentia cada dia mais angustiado e cheguei a chorar sozinho.” A fase difícil levou o gerente a buscar ajuda. Ele procurou a assistência psicológica oferecida pela Kraft Heinz aos empregados e começou as sessões por Skype. Era a primeira vez que fazia terapia na vida.



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A pandemia vem impondo desafios desconhecidos de qualquer aspecto que se observe ­— econômico, corporativo e pessoal. No microcosmo individual as barreiras estremeceram: antes lugar de refúgio, a casa virou escritório, escola, academia. Pessoas acumularam suas funções profissionais com tarefas domésticas e educacionais antes terceirizadas. Dias úteis se mesclaram com fins de semana e feriados. Com mais de três meses de quarentena, essas mudanças têm gerado uma montanha-russa de emoções, e os impactos na saúde mental — ainda não totalmente esclarecidos — começam a dar seus primeiros sinais.


Apesar de a Classificação Internacional de Doenças agregar a síndrome de burnout, em 2022, como um “problema associado ao emprego ou ao desemprego”, ainda não existe um consenso sobre a definição exata do conceito. “Em termos psiquiátricos, é um quadro controverso. Mescla-se com outros quadros, como depressão e ansiedade, mas associados ao mundo do trabalho”, diz o psicanalista Christian Dunker (leia entrevista na abaixo). No mundo corporativo, a condição já era uma preocupação antes da pandemia. Todos os anos a economia global perde mais de 1 trilhão de dólares devido à queda de produtividade por causa de depressão e ansiedade.


No ano passado, uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh mostrava que 30% das organizações no Brasil já estudavam implantar iniciativas em prol da saúde mental. Em um novo estudo — este durante a quarentena — a organização viu o número de funcionários em busca de serviços de saúde mental passar de 2,2 milhões para 8,1 milhões, antes e depois da pandemia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, até 2019 o Brasil contabilizava cerca de 12 milhões de pessoas acometidas pela depressão, o que corresponde a 5,8% da população. A taxa é superior aos 4,4% da média global. Quando o tema é ansiedade, o Brasil é campeão mundial. São quase 20 milhões de acometidos, o que equivale a mais de 9% da população.



Adriana Beatriz de Souza Affonso, de 37 anos, mora sozinha em São José dos Campos e começou a terapia oferecida pela empresa, a Buser, para lidar com a solidão. As sessões ajudaram mais do que poderia imaginar: ela se sente melhor sozinha e adquiriu mais autoconhecimento | Germano Lüders

(Divulgação/Facebook/Pet Escola Jardins/)


O aumento da incidência de transtornos como depressão e ansiedade, que já eram um problema de saúde pública no Brasil e no mundo, é o sintoma inicial de um período que pode ficar marcado pela evolução do adoecimento mental. Ainda não existem levantamentos científicos consistentes sobre o tema, mas um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicado em maio, apontou uma progressão em alguns quadros por causa da quarentena.


Em um comparativo de um grupo de cerca de 1.500 pessoas entrevistadas em março e em abril, o número de participantes que apresentaram sintomas relacionados à depressão aumentou 90%, e as queixas sobre crises agudas de ansiedade tiveram alta de 70%. “Já esperávamos um crescimento dessas patologias”, diz Alberto Filgueiras, cientista do Instituto de Psicologia da Uerj, que comandou o estudo. “O interessante é notar os fatores psicossociais e comportamentais associados ao adoecimento mental.”


Algumas das conclusões obtidas no estudo da Uerj são contrárias ao que se poderia pensar. Quem faz home office pode sofrer por se sentir preso em casa e imaginar que, quem está pelas ruas, pelo menos se movimenta mais, pega sol, tem um dia mais dinâmico. “De maneira geral, todos os trabalhadores estão em condições mentais piores, mas quem precisa sair de casa apresentou maior nível de adoecimento mental”, diz Filgueiras. “O ponto é que as pessoas sabem que a covid-19 é uma doença potencialmente letal, e sair para trabalhar implica risco à própria vida.”


Para ele, a reabertura precoce da economia pode ter um efeito nocivo na saúde mental: envolve a obrigação de sair de casa, o risco de demissão a quem contrariar a ordem e um medo ainda maior de infecção, já que as ruas estarão mais cheias. De forma parecida, a presença de crianças em casa tende a ser vista como um fator de estresse, pois exigem atenção e tempo dos pais, que têm o desafio de equilibrar a vida pessoal e profissional numa rotina em que tudo acontece ao mesmo tempo. O estudo, no entanto, mostrou que estar com os filhos em ambientes domésticos pode ser um fator de proteção.


“Saber onde a criança está e ver que está em segurança causa uma grande sensação de alívio”, diz o cientista. Outras conclusões do estudo, no entanto, corroboram ideias já conhecidas, como o fato de que as mulheres sofrem mais do que os homens. A explicação passa longe de argumentos genéticos: a rea­lidade é que são elas as responsáveis majoritárias pelas tarefas domésticas, que continuam sendo acumuladas com o trabalho remunerado, seja ele executado em casa ou não.



Gleyson Alves Pereira trabalha na Oi em Fortaleza. A pressão da pandemia veio de dentro de casa: a mãe e o padrasto perderam a renda. Agora é Pereira quem sustenta a família. Para lidar com o estresse, ele faz terapia, exercícios de respiração e ioga |

Marilia Camelo (Divulgação/Facebook/Pet Escola Jardins/)


E a pandemia não poupa ninguém. Se é difícil para quem está com a família toda em casa, estar separado dela também é um desafio. Sem poder­ ­visitar os pais em Belo Horizonte e em home office, Adriana Beatriz de Souza Affonso, de 37 anos, teve de lidar com a solidão de seu apartamento em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e com a mudança de suas funções como gerente de comunidades na Buser, startup de viagens de ônibus, depois da paralisação dos itinerários e eventos.


Ainda assim, ela se considera privilegiada, pois viu a vida de colegas de turismo, setor no qual tem 15 anos de experiência, desmoronando. “Desde o primeiro momento, a Buser comunicou que não demitiria ninguém, o que passou segurança e, quando precisei, ajuda emocional”, desabafa ela, que aderiu a um programa da empresa que oferece quatro sessões de terapia por mês aos funcionários.


Os fatores de estresse no trabalho, como acúmulo de funções ou pressão para alta performance, já eram conhecidos e ameaçavam a saúde mental dos trabalhadores no Brasil. Para eles, a quarentena e a crise econômica trouxeram novas fontes de desgaste psicológico, como o medo do desemprego, a insegurança financeira e o próprio isolamento social. Gleyson Alves Pereira, de 27 anos, assistente de canal de lojas físicas da Oi em Fortaleza, sentiu na pele as novas pressões quando sua mãe, no grupo de risco da doença, perdeu a renda que tirava das corridas de Uber e seu padrasto teve a jornada e o salário reduzidos.


O sustento da família passou a ser sua responsabilidade e ele precisou trancar a matrícula da faculdade. “Mesmo estudando psicologia, nunca achei que faria terapia. Mas, quando chegou o comunicado da empresa sobre o novo benefício, aceitei na hora. Meu nível de estresse estava altíssimo e não sabia como falar disso em casa. A terapia, os exercícios de respiração e a ioga me ajudaram muito”, diz ele.



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Com uma operação extensa no Brasil e uma realidade nova da covid-19, a Oi lançou em março um aplicativo para monitorar a saúde física e mental dos funcionários. O recurso simples pergunta à pessoa como ela está se sentindo, oferecendo atendimento remoto para quem se queixar. Desde o dia 23 de março, o app já teve mais de 111.000 interações. A partir delas, foram 7.410 contatos com médicos para tirar dúvidas e dar orientações.


E 123 funcionários que relataram questões de saúde mental foram encaminhados para atendimento psicológico remoto. “Estamos testando e aprendendo coisas novas dia após dia neste período. O trabalho remoto nos levou a criar uma solução de tecnologia que abriu novas possibilidades para ampliar o cuidado com as pessoas e ter uma agenda mais humanizada”, diz o diretor de gente e gestão, Marcos Mendes.


Enquanto a ciência ainda começa a mergulhar nas relações entre a pandemia e a saúde mental do trabalhador, as empresas, em contato direto com os funcionários, fazem mapeamentos para esclarecer a questão. No Mercado Livre, por exemplo, uma primeira pesquisa foi realizada com os 3.000 empregados em março, no início da quarentena, abordando as dificuldades que o período vinha impondo. O ponto mais crítico foi o desafio de equilibrar a nova rotina de trabalho com o cotidiano pessoal.


“Sabemos que alguns funcionários precisam parar para cozinhar, alimentar os filhos, e que isso não vai se limitar a 1 hora”, diz Patrícia Monteiro, diretora de recursos humanos do Mercado Livre no Brasil. Para mitigar o problema, a organização adotou uma série de medidas, que vão desde treinamento de líderes para gerar empatia e aprimorar a gestão em ambiente virtual até a criação de um grupo voltado para bem-estar, com aulas de atenção plena (o famoso mind­fulness), ioga e até sessão com um epidemiologista para tirar dúvidas sobre a pandemia.


As pesquisas de acompanhamento passaram a ser feitas a cada duas ou três semanas, e uma evolução, ainda que lenta, foi observada. “Nosso estudo mais recente mostra que 33% dos funcionários encontraram o ponto de conforto para trabalhar de casa, um número que, no início da pandemia, estava mais pulverizado”, diz Monteiro.


O número pode parecer baixo, mas obter conforto no home office não é tarefa fácil. Um funcionário da fin­tech­ Stone, que deu entrevista à EXAME­ em condições de anonimato, afirmou que a rotina de trabalho tem sido muito mais intensa em casa. “Começo a trabalhar ainda na cama, às vezes antes das 8 horas, respondendo a mensagens no WhatsApp ao acordar. Depois disso, vou para a sala e continuo trabalhando. Se chegar algo à noite, a ordem é responder: não existe um limite de horas trabalhadas no dia”, diz.


O empregado afirma que existe banco de horas, mas que o cansaço emocional e físico é imenso. “Junto com a operação, somam-se os problemas pessoais, a ansiedade, as dores na coluna e no pulso.” Segundo o funcionário, há um movimento de pessoas pedindo demissão simplesmente por não aguentar a pressão. Contatada pela reportagem da EXAME, a Stone afirma respeitar a legislação trabalhista quanto às horas extras e treinar seus líderes para a melhor adaptação dos funcionários durante a quarentena. A empresa diz, ainda, que problemas pontuais podem ocorrer, mas que os excessos não representam a cultura da organização.


A cobrança por produtividade parece ser um fator comum na quarentena, podendo vir da liderança, mas também do próprio funcionário. Segundo Giovane Oliveira, psicólogo da startup Vittude, o excesso de trabalho é uma queixa generalizada. “Fora do escritório, as pessoas tendem a ficar tensas porque ninguém as vê trabalhando, produzindo”, diz.


“Muitas vezes os chefes também pedem muitos retornos durante todo o dia para ter certeza de que o funcionário está cumprindo o planejamento. Isso dispara um mecanismo de ansiedade muito forte, e o empregado começa a duvidar da própria competência.” O quadro pode evoluir para um círculo vicioso: a tendência é a aquisição de compulsões, compensando no consumo de comida não saudável ou bebida alcoólica, potencialmente gerando mais ansiedade.


O descontrole em relação à alimentação apareceu em uma ação voltada para a saúde mental dos funcionários da Votorantim, grupo que emprega 35.000 pessoas. Ao oferecer consultas com nutricionistas e psicólogos, a empresa notou que as vagas dedicadas à nutrição acabaram em tempo recorde. “De maneira geral, existe um cenário de ansiedade ligado a muitos fatores que acontecem ao mesmo tempo”, diz Vinícius Holanda, gerente de benefícios da Votorantim. “Há medo da situação econômica do país, da contaminação, do incerto.


Existem, ainda, o home office, a necessidade de ser multitarefa em casa e até mesmo questões pontuais, como o excesso de videoconferências.” Na empresa, a saída também passa pelo treinamento dos gestores, que têm reuniões mensais para abordar o andamento dos times. De acordo com Holanda, a ideia é trabalhar com flexibilidade para que os funcionários consigam adaptar a rotina às tarefas domésticas. Horários de almoço devem ser integralmente respeitados, e o tempo de trabalho, teoricamente, é controlado.



O médico Renato Martins trabalha na emergência de dois hospitais e vive o drama diário da covid-19. Num plantão com um alto número de óbitos, ele sucumbiu. O diagnóstico foi burnout e agora Martins faz terapia para aliviar suas angústias

Foto:| Germano Lüders


Para além das ansiedades e dificuldades de grande parte dos trabalhadores, um grupo em particular está sofrendo duramente os efeitos da pandemia: o dos profissionais de saúde. Os que estão na linha de frente do combate à covid-19 assistem ao drama que já causou mais de 44.000 mortes e infectou quase 892.000 pessoas, segundo a atua­lização do dia 15 de junho.


Além disso, os próprios profissionais são vítimas preferenciais da doença. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil teve 31.790 casos de profissionais da saúde confirmados para covid-19. O número de casos em suspeita beira os 200.000, sendo enfermeiros e técnicos de enfermagem metade desse contingente. Isso tem levado o estresse às alturas no setor. Um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana e realizado com profissionais de saúde de Wuhan, primeira região a ser atingida pelo novo coronavírus na China, 50,4% dos participantes relataram sintomas de depressão e 44,6% de ansiedade.


O problema é que esses efeitos são de longo prazo. No início dos anos 2000, a epidemia de sars na China colocou profissionais de saúde em quarentena, o que gerou sintomas de estresse pós-traumático até três anos depois. Em Taiwan, a mesma epidemia ocasionou transtorno de estresse agudo em 5% dos profissionais de saúde da linha de frente.


Foi no final de abril que Renato Martins, de 40 anos, percebeu que algo estava muito errado. Após quase dois meses trabalhando na emergência do Hospital de Cotia e na enfermaria do Hospital das Clínicas em São Paulo atendendo pacientes que chegavam com sintomas do novo coronavírus, o médico estava exausto. Ele dormia menos de 2 horas por noite, achando inútil descansar se poderia ler sobre novas descobertas da doença. Ao mesmo tempo, ele começou a duvidar se era um bom profissional, pois sentia que seu trabalho não estava ajudando os pacientes.


“Eu não estava entendendo, mas fiquei muito mal. Eu me isolei dos amigos e da família, estava irritado, paranoico e sentia uma tristeza que nunca havia tido antes. Não conseguir salvar pacientes me trazia uma angústia enorme”, diz ele. Tudo culminou após um plantão no hospital com um alto número de óbitos, quando ele teve uma reunião com sua chefe e começou a chorar de repente. Sem conseguir controlar as emoções, ele pediu ajuda. Após a ligação para o número de emergência de saúde mental do Hospital das Clínicas, veio a explicação: burnout, a síndrome do esgotamento profissional.


O pedido de ajuda e a conversa com uma psicóloga por telefone foram os primeiros passos para entender o que passou. Com a urgência da crise de saúde, ele não parou de trabalhar. No entanto, a terapia e o acompanhamento psiquiátrico mostraram a ele que é necessário se cuidar para poder cuidar bem de seus pacientes. Compartilhar suas angústias e pedir auxílio de seus colegas no hospital foram passos importantes para aliviar a pressão e sentir que não estava lutando sozinho. As descobertas de Martins valem para todos. Em tempos anormais de uma pandemia, é ainda mais vital pedir ajuda para tratar o corpo e a mente.


* https://exame.com/Por Luísa Granato, Murilo Bomfim.





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